top of page

O comboio do bondoso dever

  • Writer: Ana Raquel
    Ana Raquel
  • Dec 25, 2024
  • 3 min read

Há dois dias foi-me dito que por eu optar por viver nos confins, longe da poluição energética, visual e sonora da cidade, eu era uma pessoa pouco evoluída. Que por eu não apreciar todo o estímulo colocado na celebração das festividades, que eu sei ser nefasto não só para humanos mas também para o reino não humano, eu deveria ir viver para Marte. Que embora eu tenha vivido em diversos lugares do planeta, a aldeia vivia em mim. Eu consenti com esta parte e dou graças por a aldeia viver em mim, embora eu não seja o reflexo de uma aldeã. De forma alguma. Mas contestei a parte de ser pouco evoluída. De que forma se mede a evolução de alguém? Pelo lugar onde vive? E contestei a parte de ter que ir viver para Marte. Eu amo a Terra e o terror de muitos dos meus momentos acordada não é provocado pela Terra, mas pela falta de consciência da nossa sociedade, que maltrata a Terra e os outros terráqueos.


Não pensem, contudo, que vivo a sentir-me uma mártir da sociedade. Tenho a Natureza, o meu refúgio, e tenho a fé, que ainda que pareça que me falha, muitas vezes, é a minha âncora, e não me permite desistir ou despedaçar-me em ruínas. Vivo como que a degustar algo que para os outros é sensacional e para mim tem um evidente trago a fel. E essa fé, de que falo, é a fé em alguns de nós, que de facto e veementemente, afincadamente e convictamente, colocam não só os seus esforços mas sacrifício, para 

um bem maior. Tocam uma vida que toca a outra e por aí adiante, naquilo a que eu chamo o comboio do bondoso dever.


Idílico, penso ser, a imagem de uma sociedade que admite e acolhe que tudo dentro dela, é uma responsabilidade de todos. Idílico, ou talvez a certeza de que esta seria uma sociedade evoluída, medida a sua evolução pela consciência que tem de si mesma e do outro. Não é o caso da nossa. Nem de lugar algum do mundo onde já vivi ou que já visitei. São passinhos que se vão dando, com milímetros de distância um do outro, só por alguns, muito poucos. Mais facilmente pega uma moda, que muito rapidamente também se abandona.

 

Este texto poder-se-ia chamar O queixume da Ana descontente. Mas o nome do texto é O Comboio do bondoso Dever. Quando não tenho razão para falar, eu fico em silêncio porque eu reconheço que sei pouco ou nada de tudo. E se de facto não houvesse razão para falar do meu coração, estaria embrenhada nesse silêncio acolhedor que se faz sentir para lá da cidade e para lá da aldeia, onde eu pretendo um dia estar. Quem me dera. Juro-vos. Quem me dera! Seria um sinal que a realidade pela qual por certo naivemente, eu tanto anseio, estar-se-ia a manifestar.

A minha intenção é sempre criar algum impacto e que o Comboio do Bondoso Dever tenha cada vez mais carruagens.

 

Infelizmente, não sei se a consciência que visiono é uma consciência que se ganha, ou talvez uma consciência que habita já, em alguns de nós apenas, e noutros, é perpetuamente inexistente.

Não sei, nem sei se alguém saberá, mas ficar inerte, mudo, cego, para o que está além da gula própria, deve ser uma lamentável existência.

Também tenho vindo a crer, que um qualquer sinal de evolução, não será apreciar o estímulo artificial exterior mas o seu oposto.

~~ Ana~~


 
 
 

Comments


bottom of page