Falácias existenciais
- Ana Raquel

- Jan 5, 2024
- 3 min read
Passamos a vida em busca daquele amor das canções ou dos filmes que nos fez sonhar que seria possível. E talvez seja ou talvez fosse. Sem sabermos se os amores das canções e dos filmes seriam reais, somos deixados na expectativa e na esperança. E se foram, continuamos sem saber a sua longevidade, porque sabemos que somos humanos, e como tal, o momento e a longevidade são tão díspares….
Passamos a vida a tentar, mesmo que remotamente, encontrar uma pessoa que nos aceite, que nos ame, que nos respeite, que confie em nós, que nos lembre todos os dias que somos amados. Que receba o nosso amor e o nosso respeito. Que mereça a nossa confiança.
Porquê esta procura e este sonhar? Quem decidiu, há tanto tempo, que este é o ideal para cada um de nós? A verdade é que o grande foco da nossa vida, desde muito cedo, é disponibilizarmo~nos, com tudo de nós, para a consumação de um ideal criado por alguém, algures, no tempo.
E se não for bem assim? Quem nos condenará? Já tanto se ouviu dizer de bocas julgadoras “ Ficou para tia” ou “É uma solteirona” com um tom depreciativo como se ser solteira, ou optar por não ter companheiro, fosse um falhanço na vida. Eu vou mais além, e atrevo~me a suspeitar que quem se encontra solteira numa idade avançada, por opção, pode celebrar uma das maiores conquistas.
Os caminhos não têm um trajecto comum nem um manual de instruções. Como se um tamanho servisse a todos. Não serve. As canções e os filmes são em vasta parte ficção. Nunca existiram tais personas. E muitas canções e filmes, quando baseados em eventos reais, são expressão de retratos de duras realidades de relacionamentos difíceis e ~ou impossíveis, porque relacionar não é “somos perfeitos um para o outro”.
Este texto é um tributo a quem decidiu mesmo que não por esta razão, quebrar uma corrente que nos mantém prisioneiros de falácias. Não creio que o motivo primordial da existência de cada ser seja encontrar a sua outra “metade” (ainda que muitos de nós siga essa direcção, mesmo nos dias de hoje).
Com isto, não quero desvirtualizar a noção de que relacionamentos saudáveis existem ou roubar mérito a quem conscientemente opta (assim como eu) por estar em relacionamento.
~~ Ana ~~

Existential fallacies
We spend our lives searching for that love of songs or films that made us dream it was possible. And maybe it is or maybe it was. Without knowing if the loves in the songs and films would be real, we are left in expectation and hope. And if they were, we still do not know their longevity, because we know that we are human, and as such, a moment and longevity are so different...
We spend our lives trying, even remotely, to find someone who accepts us, who loves us, who respects us, who trusts us, who reminds us every day that we are loved. Someone who may receive our love and respect. That deserves our trust.
Why this search and this dreaming? Who decided, so long ago, that this is the ideal for each of us? The truth is that the main focus of our lives, from a very early age, is to make ourselves available, with everything we have, for the consummation of an ideal created by someone, somewhere, in time.
And if it does not work out like that? Who will condemn us? We have heard so much from judgmental mouths that “Old maid” or “She is a spinster” with a derogatory tone as if being single, or choosing not to have a partner, was a failure in life. I go further, and I dare to suspect that those who find themselves single at a later age, by choice, can celebrate one of the greatest achievements.
The paths do not have a common route or an instruction manual. As if one size fits all. It does not fit. The songs and films are largely fiction. There never were such personas. And many songs and films when about real events, express portraits of the harsh realities of hard and~or impossible relationships, because relating is not “we are perfect for each other”.
This text is a tribute to those who decided, even if not for this reason, to break a chain that keeps us prisoners of fallacies. I do not believe that the primary reason for the existence of each being is to find their other “half” (although many of us follow that direction, even today).
With this, I do not wish to devirtualize the notion that healthy relationships do exist or steal merit from those (like myself) who consciously choose to be in a relationship.
~~ Ana ~~



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